Coluna Previna

Dr. Luís Verri

TREC e KREC
Com a recente introdução e disponibilização dos exames TREC e KREC em nossa clínica, temos visto crescer o pedido de informações sobre o tema.

A princípio, a procura maior por estes exames, ainda pouco conhecidos e divulgados, envolve o tema da prevenção de possíveis (e raras) reações à vacina BCG. Embora esta seja uma vacina segura, bebês diagnosticados com  SCID devem evitá-la.

 Tais exames, entretanto, não se limitam à questão da vacinação, sendo eficazes e importantes para a detecção (de Imunodeficiência combinada grave, Agamaglobulinemia e outras síndromes relacionadas a células T e B.

O acesso mais amplo a estes exames, agora também disponibilizados em algumas clinicas, sinaliza um importante avanço na detecção precoce destas doenças, possibilitando intervenção mais rápida e início dos tratamentos com maior precocidade.

A seguir, um artigo escrito pela equipe do Instituto de Imunologia Humana da USP, coordenada pelo Prof. Dr Antonio Condino Neto, com informações importantes e esclarecedoras sobre estes exames que embora ainda pouco conhecidos, podem salvar vidas .

Boa leitura!

Quantificação de TRECs e KRECs: triagem de recém-nascidos para Imunodeficiências Combinadas Graves (SCIDs), Agamaglobulinemias e outras linfopenias de células T e B

 

         Indivíduos com imunodeficiências congênitas frequentemente parecem saudáveis ao nascimento, pois há a proteção conferida pelos anticorpos maternos. Pacientes com Imunodeficiência Combinada Grave (do inglês, SCID – Severe Combined Immunodeficiencies) e Agamaglobulinemias geralmente manifestam os primeiros sintomas da doença entre três e seis meses de idade, com aumento de susceptibilidade a infecções, que é acompanhado de atraso de crescimento, diarreia crônica e reações graves e muitas vezes fatais a vacinas vivas atenuadas, como a BCG.

         É possível realizar a triagem neonatal das SCID, agamas e outras linfopenias através da quantificação de TRECs (do inglês, T-cell Receptor Excision Circles) e KRECs (do inglês,Kappa-deleting Recombination Excision Circles), que são pedaços circulares de DNA gerados como subprodutos da formação dos receptores de antígeno das células T e B, respectivamente. Assim, através da quantificação dos TRECs e KRECs, é possível avaliar a quantidade de células T e B virgens do recém-nascido.

         O tratamento curativo padrão-ouro para SCID no Brasil é o transplante de medula óssea. Já no caso das Agamaglobulinemias, é realizada a reposição de imunoglobulinas. Estes tratamentos devem ser instituídos precocemente e possuem com alta taxa de sucesso quando realizados nos primeiros meses de vida do bebê e quando o mesmo não apresenta infecções ativas. É de extrema importância que a triagem seja feita antes da aplicação de vacinas como a BCG e a vacina contra rotavírus, pois um resultado alterado de triagem significa que o recém-nascido não tem um sistema imune funcional para controlar os patógenos atenuados da vacina. Com a triagem, é possível o diagnóstico precoce de doenças como SCID e agama, permitindo o tratamento dos pacientes antes do estabelecimento de infecções graves.

         Além de ser utilizado como triagem neonatal, a quantificação de TRECs e KRECs também pode ser utilizada durante todo o primeiro ano de vida da criança para investigação de linfopenias no caso de suspeita de uma imunodeficiência congênita. Permitindo ao médico um resultado primário rápido e pouco custoso.

No caso de um resultado alterado, faz-se necessária a imunofenotipagem de linfócitos com células de memória, que é o exame diagnóstico do paciente. Além disso, exames básicos como hemograma e dosagem de imunoglobulinas são importantes exames complementares para a investigação. A triagem aliada a esses exames leva ao diagnóstico precoce e à prevenção de sequelas graves e até a morte destas crianças.

 

 

Bibliografia

 

Kanegae MPBarreiros LAMazzucchelli JTHadachi SMGuilhoto LMAcquesta ALGenov IR,Holanda SMDi Gesu RSGoulart ALDos Santos AMBellesi NCosta-Carvalho BTCondino-Neto ANeonatal screening for severe combined immunodeficiency in Brazil. J Pediatr (Rio J).2016 May 17. pii: S0021-7557(16)30033-X. doi: 10.1016/j.jped.2015.10.006. [Epub ahead of print]

 

Van der Spek J. et al. TREC Based Newborn Screening for Severe Combined Immunodeficiency Disease: A Systematic Review. J. Clin Immunol 2015 May; 35(4):416-30.

 

Picard C, Al-Herz W, Bousfiha A, Casanova JL, Chatila T, Conley ME, Cunningham-Rundles C, Etzioni A, Holland SM, Klein C, Nonoyama S, Ochs HD, Oksenhendler E, Puck JM, Sullivan KE, Tang ML, Franco JL, Gaspar HB. Primary Immunodeficiency Diseases: an Update on the Classification from the InternationalUnion of Immunological Societies Expert Committee for Primary Immunodeficiency 2015. J Clin Immunol. 2015 Nov;35(8):696-726. doi: 10.1007/s10875-015-0201-1. Epub 2015 Oct 19.

 

Kwan AAbraham RSCurrier R et al. Newborn screening for severe combined immunodeficiency in 11 screening programs in the United States. JAMA. 2014 Aug 20;312(7):729-38. doi: 10.1001/jama.2014.9132.

 

Borte Svon Döbeln UFasth AWang NJanzi MWiniarski JSack UPan-Hammarström Q,Borte MHammarström LNeonatal screening for severe primary immunodeficiency diseases using high-throughput triplex real-time PCR. Blood. 2012 Mar 15;119(11):2552-5. doi: 10.1182/blood-2011-08-371021. Epub 2011 Nov 30.

 

Brown L., et al. Neonatal diagnosis of severe combined immunodeficiency leads to significantly improved survival outcome