Coluna Previna

Dr. Luís Verri

Em tempos de COVID-19, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

alerta para a importância de manter em dia a vacinação de rotina. A medida

também é recomendada por instituições como o Ministério da Saúde (MS),

Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da

Saúde (OPAS), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Centro para

Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Ao mesmo tempo em que o isolamento e a limitação na circulação de pessoas reduzem

a transmissão, não só do SARSCoV-2, mas de outros patógenos, o não comparecimento

de crianças às unidades de saúde para atualização do calendário vacinal pode impactar

nas coberturas vacinais e colocar em risco a saúde de todos, especialmente frente à

situação epidemiológica do sarampo, febre amarela e coqueluche que vivenciamos

atualmente.

Esse cenário traz com ele o risco da descontinuidade da vacinação rotineira.

Tanto por conta da carga relacionada à COVID-19 sobre o sistema de saúde

quanto da diminuição da demanda em função do distanciamento social

necessário e de uma possível relutância da comunidade em se vacinar.

Segundo a OMS, a descontinuidade — mesmo que por breves períodos, —

aumenta o número de indivíduos suscetíveis e a probabilidade de surtos de

doenças evitáveis por vacinas. As consequências são o crescimento da

morbidade e mortalidade, em especial em lactentes e outros grupos

vulneráveis, e a sobrecarga dos sistemas de saúde já sobrecarregados

diante da pandemia do novo Coronavírus (SARS-CoV-2).

A OMS considera imperativa a manutenção dos serviços de imunizações em localidades onde o serviço possa ser realizado em condições seguras.

Riscos da não vacinação rotineira 1. Altas coberturas vacinais são fundamentais para a manutenção do controle ou eliminação de enfermidades que antes foram causas

comuns de doença, hospitalizações e óbitos no Brasil.

2. Doenças imunopreveníveis podem sobrecarregar sem necessidade o

sistema de saúde, seja por conta da necessidade de hospitalização

prolongada ou confusão diagnóstica. A possibilidade da COVID-19

cursar com exantema, por exemplo, pode ser motivo de dúvidas no

diagnóstico diferencial com sarampo e dengue.

3. Não há vacina para a COVID-19, mas pessoas de alto risco para a

COVID-19, em geral, também são de risco para outras infecções

preveníveis por vacinação. Baixas coberturas vacinais colocam essas

pessoas em risco ainda maior.

4. Em 2016, ano em que tivemos uma maior carga de influenza no

Brasil, foram registrados 12.174 casos de síndrome respiratória grave

(SRAG) e 2.220 óbitos causados pela influenza. A média anual de

óbitos por influenza no Brasil é de 900 casos, cerca de 60-70% em

pessoas com fatores de risco.

5. O sarampo já foi uma das principais causas de mortalidade infantil

no país. Em 1986, ano da maior epidemia da década de 1980, foram

notificados 129.942 casos de sarampo, o que representou uma

incidência de 97,7 por 100.000 habitantes. Em 1992, após uma

Campanha Nacional de Vacinação, houve queda de 81% no número

de casos notificados: de 42.934 em 1991 para 7.934 em 1992.

A diminuição de nossa cobertura vacinal permitiu que, em 2018, o

Brasil registrasse mais de 10 mil casos e perdesse a condição de

eliminação do sarampo, obtida em 2016. Em 2019, o surto se

expandiu e mais de 18.000 casos da doença foram confirmados. Em

2020, alguns estados, especialmente Rio de Janeiro, Santa Catarina e

Paraná ainda vivem o surto da doença.

6. O sarampo é doença extremamente grave que interfere na

imunidade do indivíduo, o que pode aumentar a chance de outras

infecções, inclusive pelo novo Coronavírus.

7. A febre amarela também demanda atenção especial, principalmente

na Região Sul do país, onde já foram confirmados mais de 150 casos

em macacos (epizootias) em 2020. Em 2017/18 vivemos a maior

epidemia da doença de nossa série histórica desde 1980, no período

de 01/07/2017 a 30/06/2018 foram notificados 7.518 casos, sendo

1.376 confirmados e 483 óbitos. Mais uma vez, a baixa cobertura

vacinal foi fator primordial para isso.

8. Outras infecções também são potencialmente graves e preveníveis

por vacinas, como doença pneumocócica, doença meningocócica,

tétano, difteria, coqueluche, poliomielite, diarreia por rotavírus,

varicela, hepatite B, hepatite A, formas graves de tuberculose,

doenças causadas pelo HPV.

A SBP e a SBIm sugerem que:

1) A oferta das vacinas deve ser mantida de maneira regular e sustentada pelo PNI;

2) A população deve ser encorajada a manter o calendário vacinal atualizado,

procurando visitar a unidade de saúde mais perto de suas residências e em

horários menos concorridos;

3) As estratégias de distanciamento, especialmente de idosos, devem ser

desenvolvidas de acordo com a realidade de cada local;

4) A vacinação em ambientes como escolas, clubes e igrejas, neste momento áreas

ociosas, deve ser estimulada;

5) Horários diferenciados para a vacinação de crianças e adolescentes devem ser

criados;

6) Sempre que possível, a vacinação domiciliar é uma opção a ser considerada;

7) O calendário deve ser otimizado, com a aplicação do maior número de vacinas

possível na mesma visita, desde que se respeite o intervalo mínimo entre as

doses, com o objetivo de reduzir o número de visitas às unidades de saúde;

8) Clínicas privadas de imunização devem organizar seus serviços a fim de manter

o distanciamento social exigido nesse momento;

9) Não há evidências sobre a interação da COVID19 e a resposta imune às vacinas.

Para reduzir a disseminação da doença, qualquer pessoa com sintomas

respiratórios ou febre, deverá ser orientada a não comparecer aos centros de

vacinação;

 

10) Casos suspeitos ou confirmados de COVID19 poderão ser vacinados após a

resolução dos sintomas e passado o período de 14 dias do isolamento.

 

Juntos podemos enfrentar o desafio de manter nossas coberturas vacinais

e não permitir o retrocesso de todas as conquistas obtidas!

Dr Luis Alberto Verri       
CRM51162

 

Bibliografia

Nota técnica SBim "Vacinação de rotina durante pandemia covid-19 "  atualização  09/04/2020                                                           Nota técnica SBP/SBim- "Calendário vacinal da criança e pandemia de COVID 24/03/2020"